Tempo, Tempo, Mano Velho…

Estou velha e chata. E não me pergunte por que eu “acho” isso. Eu não acho, eu sei que estou. E explico.  Não estou afirmando isso por conta de ter encontrado meia dúzia de cabelos brancos, perceber que meu metabolismo está mais lento e que a celulite e as gordurinhas, sempre tão distantes de mim, fazem parte agora da minha vida. Digo que estou velha por causas mais abstratas que essas.

Há alguns dias fui ao aniversário de uma amiga. Uma pessoa adorável a qual eu amo de coração. Bom, a dita comemoração foi em um bar, em São Paulo, super animado e badalado, um primor.  Me pergunte sobre a banda, me pergunte o endereço e preço da cerveja. Mas não faça perguntas difíceis como “tinha gente bonita?”, “qual o esquema da casa?”, “é um bar para curtir a azaração?”. Responderei que não sei, não vi. Parece até  que eu não estava lá e não faço idéia mais do que seja um bar para “azaração”. Lá na minha longínqua juventude de baladas o termo era paquera. Nada pode ser mais antigo que isso.

E para aqueles que não me conhecem, esclareço: Não tenho 60 anos, não… Eu tenho 26 e 11 meses e já estou ultrapassada.

Concordo que o fato de não prestar atenção nas pessoas pode ser porque hoje eu sou comprometida e, outra coisa de gente antiga, sou uma pessoa fiel no relacionamento. Então, a azaração seria descartada, mas, mesmo assim, não sou cega, apesar de muito míope, e poderia ver as belezuras do local. Outro motivo plausível é que não via minhas amigas há muito tempo e, NADA, poderia ser mais interessante que passar as poucas horas nas quais estive no bar conversando com elas.

Aliás, conversar, é algo que fazemos muito. Nós, os velhos. Os jovens dançam, bebem, badalam e trocam idéias. Velho conversa. E quer saber? Não vejo nada de errado nisso.

Já se convenceu da minha idade espiritual? Tenho mais argumentos.

Eu não sei mais pegar uma cerveja e dançar a noite toda como se não houvesse amanhã. Eu não sei chegar “trililaça” em casa. Até porque na minha época era “bebaça” ou “chapada” e o verbete neolinguístico derivado de trilili não existia. E sabe por que? Porque estou velha, chata e responsável demais para isso.

Balada com pessoas de 20, 22 anos? Balada de criança, praticamente matinê. Hora, sou uma mulher de 26 com espírito de 60, o que torna muita coisa inaceitável.

Eu não sei mais o que acompanha as diversões acima. Aliás, nem acho mais divertido e isso me dói. Machuca porque eu não era essa pessoa que eu sou. Não nasci assim. Nasci sem dente e careca para depois de tanto tempo me colocarem aparelho nos dentes e tintura nos cabelos…

O que aconteceu com o tempo em que eu era mais jovem, tinha menos sono e menos peso, mais dinheiro e menos responsabilidade? Quero minhas fraldas de volta. Voltar a pular elástico e fazer do coffee break um intervalo e dele um recreio.

Quero vestir minha Barbie estilo passeio e não ter medo ou vergonha de olhar meu corpo no espelho. Quero voltar ao tempo em que desodorante era talco pompom e creme para garotas era somente filtro solar, e não renew after night. Voltar ao tempo em que olheira era coisa na cara de ursinho panda e uma palavrinha parecida com orelha. Quero o tempo em que calo era caroço nas mãos por andar de bicicleta, portanto, não era nada mau ser uma pessoa calejada.

Quero a festa, a dança da vassoura e a paquera. Férias 03 vezes ao ano e ter como maior dificuldade da vida a prova de matemática.

Quero o travesseiro, a mamadeira e o ventre. Quero cursos de inglês às quintas e aula de datilografia. Quero o ontem porque amanhã estarei mais longe da carequinha sem dente que eu fui. Embora eu acredite que há grandes chances de voltar a ficar careca e sem dente.

Não quero rugas de expressão que contem o quão expressiva foi minha vida. Não quero gordurinhas que contem o quanto de orgia gastronômica cometi. Ou mesmo calos no corpo e na alma que mostrem o quanto ativa, feliz ou triste, eu fui.

Quero que essas marcas se calem. Porque quanto mais o tempo passa, elas armazenam mais de mim. E no fundo, essas malandras exploram quem eu fui, para projetar quem eu sou. Antiga, de corpo e de alma. Com muitas histórias que nem cabem mais na memória então guardo silenciosamente no papel. Guardo com cuidado para que o tempo não apague essa trajetória louca e desgovernada que me fez assim: Velha. E ponto final.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *