Quem foi que disse que você sabe escrever?

Depois de uma semana com vários temas que merecem um post por aqui (mas não ganharam nenhum, como podem ver), me peguei olhando para a tela vazia do meu computador e pensando: que merda eu fiz a semana toda que não tem nada novo no meu blog?

Bom, a resposta é: entreguei alguns trabalhos pros meus clientes de consultoria, assisti aos Raptors na TV, esperei o James Bond vir consertar o aquecedor (de novo) e fiquei devaneando porque diabos eu insisto em escrever em um blog que não tem frequência, sentido, eira ou beira.

A resposta parece elementar meu caro Eu Interior! Porque eu posso. Porque eu tenho tempo e medo de desenvolver Alzheimer e porque alguém me disse que eu deveria. Mas quem?

Tudo começou em 1900 e guaraná com rolha quando uma jovem Renata, então com 9 anos de idade, cabelos dourados e uma caixa de lápis de cor Faber Castell na mão escreveu: Minhofoca, a Minhoca que queria ser foca para uma redação do colégio.

Mal sabia ela que todo mundo ia ficar feliz e contente com sua criatividade e desenvoltura.

Jovem Renata então achou uma razão para viver e uma maneira de contar os dramas da vida investindo apenas em papel e caneta bic.

Foram muitas tardes debruçada numa agenda com poemas, músicas, sonhos de valsa e chiclete ploc, anexando ao vulnerável papel  desde amores, crises e loucuras da adolescência à fatídica e quase divertida vida adulta.

Ai veio a internet, permitindo coisas incríveis como parecer idiota numa escala muito maior (world wide). Então, não tão jovem, Renata pensou: por que não?  Assim nasceu o T3P.

Mais do que uma oportunidade de fazer alguém ler o que eu escrevo (além da minha mãe e minha irmã), o blog é o reflexo de um estímulo que recebi quando criança. Aquela declaração meio esquisita que ouvi alguns muitos anos atrás; “você escreve tão bem, dá pra te ouvir falando quando leio. Por que você não tenta fazer  algo com isso?”

Sempre duvidei da capacidade de julgamento das pessoas (em geral), mas nisso ai que me disseram eu acreditei.  E acreditei porque já sabia.

Ok, talvez não soubesse que meus textos “eram bons” aos olhos dos outros. Mas já sabia que escrever era legal pra caramba.  E também que eu não era “boa” em mais nada. Incluindo coisas simples para pessoas normais como: fritar um ovo, raiz quadrada, fazer fórmula no Excel ou gerenciar uma empresa de 4 mil funcionários (certeza que é fácil pra alguém).

Então, o que foi que eu fiz com a descoberta do meu Dom? Procurei uma faculdade, um emprego, amigos, parceiros, um vida na qual eu pudesse me moldar e encaixar direitinho.

E foi então que eu parei de fazer o que eu achava que fazia bem, para tentar fazer bem coisas que eu achava que deveria saber. Parece confuso. Na verdade é.

Em algum momento da minha vida eu acabei confundindo gostar de ler com comprar o último Best-seller;  me manter atualizada com jornal diário; gostar de escrever com jornalismo; ser sociável com facebook e ser boa no que faço com ganhar dinheiro.

E a verdade nua e crua é que nunca fiz um centavo escrevendo crônicas. Quando me formei em jornalismo e arrumei meu primeiro emprego “na área”, deixei de vez de escrever sobre o que eu gostaria para escrever fatos, releases, chamadas para banners e tudo mais que me encomendassem.

Ganhei dinheiro, fui feliz, até tive sucesso. E a Minhofoca passou a ser só uma coisa que eu pensava de vez em quando.

Até o dia em que resolvi romper com tudo. Num impulso de insanidade eu me joguei pra fora da vida na qual eu me encaixava tão bem.

Não restou muito coisa da minha saída. E quando eu estava mexendo nas caixas de papel emboloradas que eu trouxe na mudança, achei a Minhofoca.

Fiquei maravilhada em saber que ela sobreviveu por tantos anos. Uma minhoca, do canteiro do jardim por mais de vinte anos tentando uma metamorfose inútil.

-“Todo mundo sabe que minhocas não se transformam”, eu disse a ela.

-“Não seja ridícula” –  ela disse. “Não estou preocupada se vai dar certo, eu só quero ver o mar”.

-“ Você passou 20 anos esperando cair na água e ser dissolvida ou virar comida de peixe? Esse não me parece um bom plano”.

-“Você tem alguma ideia melhor?”

 -“Na verdade não, mas eu também gostaria de ver o mar”.

-“Então vamos! Mas traga papel e caneta para escrever um final melhor pra mim”.

-“Acorda Minhofoca. Faz tanto tempo que estou enferrujada. Aliás, quem foi que te disse que eu sei escrever?”

 – “Você. Vem, já peguei o guarda-sol”.

guarda-sol

2 Comentários em “Quem foi que disse que você sabe escrever?”

  1. Ai eu te pergunto. Onde e que ta escritora que e minhofoca nao pode exisitir? Depois que o Tiririca foi eleito eu nao duvido de mais Nada.

  2. Olá Renata! Por uma simpatia (sem ônus) gosto de virginianos, mais ainda quando eles rompem com os seus próprios limites! Acabei de ler o seu post. Que relato pessoal bem humorado! Você escreve bem , uma leitura leve, com diálogos consigo mesma e respostas inteligentes e criativas. Escrever, para mim, é colocar a alma e os sentimentos, de maneira simples, em fatos cotidianos, onde os leitores possam também se ver. Não na mesma história mas, no mesmo sentimento, na mesma visão. É! Você faz isto mesmo, e não é tarefa fácil! Adorei este flash de auto biografia e esta forma de desconstruir a narrativa quando leitor já está bem acostumado a um ritmo que você “desenhou”. Me parece que foi assim mesmo que você fez o seu caminho de vida…a música ainda tocando e você já dançando num outro ritmo! Adorei o seu texto! Um abraço virtual e apertado!

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