Longe da Primeira Fila

“Quando for a um balé, não sente na primeira fila”

Noite de sexta-feira, escritório vazio. Um pouco anestesiada pelas 14 horas de trabalho e suja como um leitão, você sai.  Por uma brincadeira do destino seu carro está virado para o lado oposto da saída ideal do estacionamento e não há como manobrar ou entrar na contra-mão.  Ok.. tudo bem se mudar o caminho por um dia. O que poderia acontecer?

Decidida a desbravar as congestionadas ruas de São Paulo, você se aventura por um caminho diferente na longa volta para casa. Atormentada pelos acontecimentos do dia, demora cerca de 15 minutos para perceber o celular tocando. São os amigos convidando para tomar algumas cervejas e conversar durante horas sobre trabalho, cinema, política e, claro, por que não sobre a vida alheia. A rota é redirecionada para o bar e o fim da semana começa a melhorar.

Depois de incansáveis voltas no quarteirão procurando uma vaga para estacionar, você finalmente encontra sua trupe e, entre uma cerveja e outra, se pega tentando chamar a atenção do novo integrante da turma; um gatinho estrategicamente posicionado na outra ponta da mesa. Um pavão seria mais discreto!

Subitamente você se sente tão ambientado quanto um palhaço em um velório e, como se isso já não fosse motivo suficiente para pedir uma dose de arsênico, o tal gato vai embora. É.. até que foi bom. Todo mundo sabe que homens cobiçados, doces calóricos e calcinhas sem algodão devem ser evitados.

A noite corre lenta e embriagada e torna-se um exercício de muita criatividade sobreviver a todas as perguntas sobre sua vida pessoal inexistente. Não se sabe exatamente como a balada termina, quem sabe em algum momento entre o completamente bêbada no banheiro e seu corpo estirado na cama (na sua casa e sozinha! Note bem!).

O dia seguinte começa sonolento e segue umas horas em marcha lenta. Perigo imediato! Houve tempo para relembrar a conversa e, claro, o gato misterioso e cheio de adjetivos proibidos da noite anterior. Não adianta negar, você está categoricamente interessada no fulano. Usando artifícios insanos, você consegue o nome, e-mail, data de nascimento, prato predileto e até a cor do pijama do dito cujo.

Para cumprir o protocolo e bater o recorde das expectativas frustradas vocês trocam alguns… na verdade,  exatos 3 e-mails.  Você tenta ser simpática, finge surpresa ao saber que tipo de música ele gosta, convida o infeliz para sair … e se dá conta de que é mais fácil  tomar suco de acerola usando um hashi.

Finalmente você percebe que foi de pavão a galinha d´angola mais rápido que a luz.

O tigre de bengala em questão está envolto demais em suas íntimas, infinitas e medrosas preocupações. Você não se sente menos idiota do que há uma semana, quando o viu pela primeira vez e fingiu para si mesma que só valia a pena esnobar.

Também… quem mandou acreditar em contos de fadas? Você já tem idade suficiente para saber que só há um meio de encontrar um príncipe encantado. Encontre um sapo e faça o curso “225 maneiras de fazer mágicas como David Copperfield Ò”.

Claro que você também sabe que existe uma dose cavalar de exagero nas investidas e expectativas dessa longa semana de sondagem… mas para que existiriam portas se a gente não quebrasse a cara nelas? E as feridas semi-abertas sempre serão curadas… pelo tempo, que é uma espécie de rum. Se ele não curar, pelo menos anestesia.

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