Minha vida escandalosa

E como eu percebi que fazer barraco é (SIM) muito chic.

Estava eu cuidando da minha vida quando de repente uma mensagem na tela do meu computador me fez querer gritar: “ não foi possível carregar essa página porque você NÃO TEM INTERNET”. Talvez não tenha sido isso literalmente, mas foi quase.

Foi então que meu coração quase parou. COMO ASSIM, mundo?

Como é que eu vou trabalhar (meus textos, minhas angústia, minha vida) sem poder publicar isso na internet? Como vou ver a vida perfeita dos outros no facebook e me deprimir por uma semana por não fazer yoga, dar um jantar lindo em casa (regado a vinho e comidas com nomes estranhos), não ir a uma viagem incrível pra Las Vegas ou a uma conferência para gerentes de qualquer coisa num luxuoso hotel em São Paulo?

Eu pre-ci-so de internet pra viver a minha vida e alimentar uma vida imaginária na cabeça das pessoas, que veem minhas fotos nas redes sociais e criam delírios tropicais sobre minhas aventuras canadenses.

SIMPLESMENTE não dá! Não dá pra viver uma vida de silêncio. E foi então que eu percebi duas coisas.

1-Ser brasileiro é ter um bichinho incômodo dentro da gente que a TODO MINUTO grita: WHAT???
A net caiu no meio do jogo do Curíntia. WHAT???
A equipe vai fazer revezamento no feriado. WHAT???
Vai chover no final de semana. WHAT???
A sogra vem pra jantar. WHAT A FUCK???

2-Você tira a pessoa do Brasil,mas não tira o Brasil da pessoa. NUNCA!

Pois é. Ser brasileiro no Brasil, no Canadá ou em outro planeta é ter um O QUE? bem grande assim, em caixa alta, dentro da gente.

E foi então que o meu WHAT se direcionou furiosa e brasileiramente contra a Bell, uma companhia de tv, internet, comunicação, venda de churros (mentira!) e afins que temos por aqui.

Imagina uma companhia que mistura o sinal da sky em dia de chuva com o atendimento da TIM, a publicidade da Claro, o patrocínio aos eventos do Itaú e o preço da BMW. Pois é.

Como empresa de internet, portanto detentora de toda a minha devoção e respeito, eles decidiram que o pacote que usamos desde sempre não será mais comercializado. Com isso em mente, tiveram a delicadeza de nos avisar que mudariam a tecnologia, o sinal e, porquê não, o pacote todo e que poderíamos ficar sem sinal até trocarmos o roteador ou equivalente.

E eles nos avisaram num lindo email com data para tudo isso acontecer. Então nós nos preparamos para tal ajuste, tudo ocorreu bem e esse post não tem razão de existir.

Ai eu caí da cama, acordei e descobri que ISSO NUNCA ACONTECEU.

A empresa de internet pensa que não é muito efetivo avisar as pessoas via internet dos problemas e soluções que envolvem… INTERNET.

Então eles nos ligaram, enviaram mensagem de texto no celular (é o que dizem), cerca de 15 dias atrás enquanto estávamos em férias  NO BRASIL.

Como não conseguiram falar com ninguém no telefone, pensaram o óbvio: Bora desligar a internet de todo mundo e ver quem reclama. Se reclamar a gente religa mas antes avisa pra eles que vai custar 30 dólares a mais do que eles já pagam todo mês.

WHAT???

Você não vai na casa da pessoa, muda o canal da TV e cobra 30 dólares para por de volta. Você faz isso? Mas é claro que não! Não faz porque não pode e porque no Brasil a gente tem PROCON, ReclameAqui ou um primo desocupado que fica o dia inteiro postando nas redes sociais das empresas que fazem isso.

Mas isso não acontece por aqui. Eles mudam nossas caixas de correio, desligam nosso gás, mudam o plano da internet e a gente tem que se adaptar como quem se acostuma a achar -40 graus no inverno uma coisa normal. NÃO É NORMAL. Nem o frio, nem a política de mudança da vida dos outros.

E eu decidi gritar. Gritar pela casa feito uma louca, tirar a calça pela cabeça e fazer um verdadeiro barraco pro namorado que, acostumado a ser canadense e pacífico, foi lá e pagou os 30 dólares para ter o mesmo serviço que tínhamos por trintadoletas a menos.

E aí comecei a repassar na minha cabeça todas as vezes em que rodei a baiana porque alguém estava tentando me passar pra trás. E descobri que quebrar o barraco é a coisa mais legal que pode acontecer no nosso dia.

Por trás do barraco se esconde a luta pelos direitos, a consciência de que algo está errado e a vontade incontrolável de mudar o que não está certo.

Só faz barraco quem nasceu livre, quem pensa, quem critica e analisa dois lados de uma situação para então concluir que ela não tá lá tão equilibrada. Tá bom, tem gente que desce do salto sem o menor argumento, só pelo prazer de gritar. Mas até pra isso é preciso ter uma faísca de liberdade lá dentro da gente que arde em combustão cada vez que alguém corta nossa internet ou quando o bom senso avisa: “Tá certo isso não”. Barracar é um privilégio, que poucos fazem com maestria.

E munida da minha certeza de ter sido lesada e traída pela empresa que decidiu me condenar a um dia inteiro de reflexões e pensamentos offline; começo aqui o meu protesto.

Liberdade, Igualdade e Internet pelo preço antigo.  HOJE! Porque eu tenho muito o que fazer. E se for preciso ligar 50 vezes pro atendimento, eu o farei. Tenho todo o tempo do mundo, uma mente criativa para diálogos telemárticos e nenhuma internet para dar vazão a toda essa energia.

Portanto querida empresa de internet, eu assumo que religá-la na minha casa pelo preço abusivo que eu já pago é agora interesse tanto seu quanto meu.  Do you feel the same?

 

Nota:
Rodar a baiana só tem efeito se seguir regrinhas simples de convivência humana no planeta:

  • acredite no que você diz (e se pergunte 3 vezes se é mesmo necessário barracar),
  • tenha educação (nada é pior do que um louco varrido agredindo pessoas no telemarketing),
  • seja bem humorado (barraco bom é barraco divertido. E tem mais, ninguém quer ajudar uma pessoa chata e grosseira).

1 Comentário em “Minha vida escandalosa”

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