Feliz Alma Nova

E então é 27 de dezembro de 2015. E o que você fez?

2015 foi o ano do tudo ou nada, do pagar pra ver, das plantações em um terreno desconhecido, sem saber se haveria o dia da colheita.

Nesse ano vimos Jout Jout Prazer botar o Jô Soares na berlinda, vimos mulheres saindo às ruas com pedidos de igualdade (coisa que, se precisa ser pedida a essa altura do calendário, diz  muito sobre o quanto vivemos em um mundo doente), vimos bikers brigando com motoristas, religiosos contra espiritualistas, o pacífico Canadá cogitando comprar uma briga, a Colômbia tendo Miss Universo por 30 segundos, Donald Trump correndo à presidência dos EUA e Chico Buarque batendo boca na rua.

E eu não sei se agradeço ou corro para as montanhas por ter visto tudo isso.

Profissionalizamos o povo de humanas para que possam vender suas miçangas na praia, vimos tentados à cidade Luz, o dólar chegar à Marte, Matt Damon voltar de marte e Carrie Fisher enrolar a longa cabeleira em dois nozinhos novamente. Que ano!

Entramos na toca do coelho à meia noite do dia 31 de dezembro de 2014 e vivemos num delírio lisérgico desde então.

Milhares de pessoas nas ruas no Brasil para pedir impeachment ou impedí-lo, mas não foram em maior quantidade do que as pessoas que nela vivem, na miséria de dinheiro, comida e abrigo, além da escassez de decência e amor.

Vimos o mundo como um todo e o universo particular de cada ver encontrar seu avesso. Vimos crianças fazendo birra e reinando absolutas sobre seus pais que não sabem mais no que acreditar diante de um mundo que não diz a que veio.

Vimos casamento homo afetivo ser legalizado, vimos homossexuais serem caçados como animais. Vimos que nos importamos tanto com o que as pessoas fazem na cama que perdemos a habilidade de enxergar o que fazem forem dela, na vida.

Vimos que não somos nada. Aprendemos que somos tudo. E o que vamos fazer com isso?

2016 será o ano 9 segundo os entendidos em numerologia. Um ano de realizações e conquistas espirituais. Mas estamos tão longe de enxergar o que vem do espírito. 2016 anos após o nascimento de Cristo (ou conte como você quiser) e ainda confundimos fé com religião, argumentação com imposições e revolução com botar fogo no barraco.

Enquanto isso, um mar de lama polui a costa brasileira e quase não se é possível fazer nada, além de lamentar. E eu só consigo pensar em arrumar toda essa bagunça começando pela louça aqui de casa. Louça que eu lavo, sem me preocupar se meu namorado deseja fazer o mesmo, ou se não faz porque ele é homem. Peço para que ele retire o lixo porque assim terminaremos mais rápido, se agirmos como um time ao invés de tentarmos fazer as mesmas coisas, ao mesmo tempo, só porque somos iguais, em direitos e deveres.

Ele me avisa que vai começar a organizar o basement e guardar suas ferramentas nas gavetas que compramos. Eu sorrio, ele agradece e ambos decidimos o jantar enquanto seguimos satisfeitos por contar um com o outro, nas tarefas, nas decisões e, como desejamos que seja, na vida.

Penso o que posso fazer para acalmar a saudade que sinto dos que amo. Qual minha parcela de culpa na sujeira que vejo do lado de fora, nas pessoas sem família, com muitas dores e sem esperança.

Páro e penso mais uma vez no mundo. O que mudaria se no conjunto da obra eu pensasse cada vez que decido fechar os olhos no ônibus para não dar lugar a ninguém, ou quando doo meu último dólar a alguém na rua e fico sem meu café, enquanto essa pessoa o queima em um cigarro. O que mudaria se eu povoasse o mundo com uma criança, o que mudaria se eu não estivesse mais nele.

Cada vez mais ser a mudança que eu quero ver no mundo dá lugar ao “o que o mundo vai fazer para que minha vida seja mais fácil”. É tudo tão lindo na teoria mas tão difícil se viver. E isso também é humano.

Humanos, seres estranhos que contam com o calendário para tentar uma coisa nova amanhã: dieta na segunda-feira, escola no semestre que vem, tolerância a partir do próximo ano.

Quais seriam os nossos valores se não tivéssemos que encontrá-los nas páginas dos jornais? Por que é tão árduo classificar o que vem de dentro? Ou estamos transbordando, ou profundamente vazios.

O que foi que vivi em 2015? Eu vi a mudança do mundo, vi meus amigos chegarem e partirem, o Papa Francisco tirando seu primeiro selfie, as Kardashians sendo modelo de conduta e a histeria coletiva em vários idiomas e culturas, ganhando as manchetes ao redor do globo.

Vi o Padre Fábio de Melo como apenas um homem e seu twitter, sendo um modelo moderno e saudável de religioso. Um divertido homem de fé, no lugar de uma enciclopédia de regras e mandamentos.

Em 2015 vivi minha alma confusa e assim vejo que fomos todos nós. Confusos por estarmos tão certos e convictos de nossas razões. Nunca foi tão trend alardear incertezas, escolher um lado da moeda e escancarar uma velha ou recém adquirida opinião formada sobre tudo.

E nesse último domingo de 2015, eu quero água, caindo do céu, enchendo minha banheira ou jorrando do meu chuveiro para lavar a sujeira de tanto sangue derramado, do lixo jogado nas ruas, da lama de Mariana e dos meus pensamentos conflitantes e sem sentido.

Eu quero água salgada para pular as 7 ondas, para limpar os meus pratos sujos de resto de comida e matar a sede do sertão.

Eu quero o dilúvio, um copo com gelo para aplacar o calor e as lágrimas que representam tudo que temos e o que falta dentro de nós.

E que ao inalar um pouco do ar frio da América do Norte, onde vivo agora, eu sinta o cheiro da brisa refrescante do meu amado Brasil, repleto de amigos, amores e parentes que protagonizam a minha solidão independente em terras distantes. E que isto me baste para renovar a esperança em mim, na igualdade, justiça e espiritualidade que eu pratico a cada dia. E que, se praticados em conjunto, como um casal que se divide em lavar a louça e retirar o lixo, lentamente sejam refletidos no mundo.

Que 1 de janeiro não seja somente um marco de Ano Novo, mas o escandaloso início de uma alma nova que possa servir para ser servida, dividir para reinar e começar uma mudança positiva naquele que é o mais significativo dos mundos: a consciência de um coração que anseia pela paz.

Feliz tudo novo! Paz na Terra e mais humanos de boa vontade.