A Pedra e a Cadeira de Rodinhas

” Poucas coisas são mais terríveis que o grito. Uma delas é o silêncio.”

Ele estava lá. Sentado em sua cadeira de rodinhas. Olhos penetrantes, ameaçadores, uma confusão por trás da retina. Sabia muito sobre tudo, ou quase tudo.

Ele poderia escrever, editar, publicar, falar e entender com a velocidade da luz. Parecia compenetrado, culto, inteligente, mas não lhe parecia sábio.

Ela o olhava de frente. Uma mistura de confusão e perplexidade a invadia.

O seu jeito, seus hábitos, seu tom, a forma como gesticulava. Tudo era tão grande diante dela, que ela parecia alguma parte insignificante de um micróbio.

Ela era o pequeno polegar naquele momento e em muitos outros momentos em que percebia que não compreendia sequer um terço do que ele pensava.

Talvez os dois tivessem inteligências diferentes, se é que isso existe, ou pensavam com lados opostos do cérebro, se é que a ciência permite.

Não eram completamente opostos, mas de alguma maneira eram como peças de um brinquedo lego com uma parte mastigada por um cachorro faminto.

A princípio se entendiam, mas depois viraram a água e a pedra. Alguma espécie de pedra espuma, como nos episódios de Chapolin, porque era inquebrável.

E lá estava a pedra. Ela e sua cadeira de rodinhas. Voz forte, rouca, ameaçadora. Certamente em seu copo havia algum Biotônico Fontoura Ò das pedras. O que mais poderia torná-lo tão forte?

Teria ele saído de algum vulcão? Uma lava insana consumindo tudo em direção ao mar?

Ela não sabia nada sobre ele. Tudo que ela pensava saber sumiu no primeiro grito. A impaciência a assustava. Era algo a beira do anormal.

Claro que ela estava longe de ser ou parecer algo que beira a normalidade mas.. aquele comportamento era uma espécie de hieróglifo  psicografado em  braile.

E lá estava a cadeira de rodinhas… Quem poderia concorrer com ela?

E eram inúmeras as pendências, as cobranças e a agressividade entre eles.

O que saberia ele da vida? Da vida como ela a vê.

O que poderia dizer da sensibilidade, do sol, da lua, da névoa, dos sonhos dela?

O que saberia ele de sonhos?

Que mundo ele veria além da cafeína de todas as manhãs e do trânsito engarrafado ao cair da tarde?

Ela nunca saberia. E por mais que procurasse e gritasse por dentro em cada momento vazio… Tudo que se via era ele, ali, calado girando em sua cadeira de rodinhas.

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